• Orlando Coutinho

Areopagítica


Em tempos de contração das liberdades – por razões de ordem sanitária, dizem – já que o uso das mesmas parece não ter efeitos de controlo pandémico desejado pelas autoridades, recomendo – uma vez em casa – a leitura de um pequeno livro já muito antigo (1644) sobre outras liberdades: as de expressão e publicação de obras literárias e da sua consequente leitura na Inglaterra do século XVII.

Não é meu propósito desvendar o livro que se tornaria entediante para quem o pretenda vir a ler, tão só abrir o apetite.

Em primeiro lugar do autor, já que no prefácio da edição de 2009 da Almedina, logo na página 8 – que vagueia nas prateleiras cá de casa – Jónatas Machado, refere « John Milton, ele mesmo profundamente religioso, advogou e praticou uma ampla liberdade de expressão religiosa, mostrando que uma convicção religiosa profunda, longe de conduzir necessariamente ao autoritarismo dogmático e censório, pode ser plena e consistentemente compatível com a promoção da liberdade.» De facto, como à frente se pode verificar, Milton não se coíbe em pôr-nos a pensar de modo “provocatório” quando refere na página 46: «E talvez a maldição em que Adão incorreu ao conhecer o bem e o mal tenha sido justamente essa, conhecer o bem através do mal.» Sendo que as suas inflexões com exemplos de cariz religioso continuam, ao propor, na página 78 que: «Um homem pode ser um herético na verdade: se acreditar em algo só porque o seu Pastor assim lho diz, ou a Assembleia decreta, sem saber de outra razão que o justifique, ainda que a sua crença seja verdadeira, a verdade mesma que defende converte-se na sua heresia.»

O livro, tão só alguns exemplos dos aqui apontados, não é de uma contestação religiosa, longe disso, como aliás se trata de esclarecer no prefácio; antes, aponta para o acriticismo censório que pode gerar pouca fluidez de ideias; estas devem e podem ser publicadas, examinadas e contestadas na justa medida dos argumentos que se contra-apresentem. Como acontece, hodiernamente, nas redes sociais, com maior ou menor valor na ênfase que sempre aí é dada para se ser escutado.

Bem Vistas as Coisas, a liberdade deve ser defendida a todo o momento.

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