• Orlando Coutinho

O Novo Campeão


Nunca tive com o futebol um amor conjugal do tipo “ou ela ou eu”. Por isso, nas bocas de muitos sou vitorino; nas doutros tantos serei sportingado. Vivo bem com isso e não se me dá o drama psicofilosófico da dupla filiação. Ela é inteiramente compatível porque a dimensão associativa tem para mim um patamar comunitarista e não capitalista. Ou seja, gosto que ganhe o melhor por ser melhor e porque corresponde ao esforço e mérito de quem ganha, não por euros, imposição ou subjugação do outro; uma competitividade de autossuperação e não de coação alheia.

A verdade é que servi, em patamares e momentos diferentes, as duas instituições com tudo e sem nada esperar, como, aliás, sempre aconteceu na minha participação associativa. Sobre o dito associativismo, o Sporting ensinou-me um lema que levei para a vida: esforço, dedicação, devoção e glória (sendo que esta última, a represento, como a certeza do dever cumprido, já que a glória, tout court, para quem acredita, se dará noutra dimensão). Estou, por isso, muito contente com esta conquista do Sporting. Contudo, confesso que fiquei ainda mais contente com o modo político como a instituição resolveu a sua maior crise de sempre, demonstrando que a sua democraticidade e a sua justiça funcionavam na plenitude, muito melhor - sem aso para comparação - do que no país, o que nos deve levar a pensar enquanto comunidade. Eu sou assim, esquisito; celebrei imenso quando o Vitória conquistou a Taça de Portugal, mas fiquei mais contente quando o clube recuperou a maioria da SAD (e eu até sou acionista, bem entendido que me tornei por perceber que era, à época, a melhor defesa da instituição). Outra verdade é que o Sporting me ajudou muito - na adolescência e juventude - pessoal e academicamente em circunstâncias que não virá ao caso especificar. Quem me conhece sabe que sou "um investimento com retorno”, isto é, sou grato a quem me ajuda. E por isso o meu reconhecimento ao Sporting Clube de Portugal por uma conquista que almejava há muitos anos. Justa e com mérito, como por exemplo foi a do Porto na época transata. E é assim que vejo o desporto, um modo de encontro humano cujas derrotas de hoje, são alegrias de amanhã porque a entrega, a participação e a superação são simbolicamente o motor da nossa realização terrena.

Bem Vistas as coisas, o Sporting é um justo campeão.

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