• Orlando Coutinho

A Verdade não é para todos

Atualizado: 20 de Jul de 2019



A verdade é um tributo fundamental no fenómeno político globalmente considerado.

Em redor do que com ela fazem os “atores” resulta uma avaliação – nem sempre decisiva, mas relevante - por parte do “espectador/decisor” que, em regimes democráticos, tem – em certa medida - a primazia na hora das escolhas.

Por estes dias, a verdade está nos holofotes do espaço noticioso pelo que terá dito Centeno, Ministro das Finanças e alguns dos seus interlocutores, no episódio Caixa Geral de Depósitos. Este exemplo, recente e que, entre muitos e bem mais importantes, tem sido fraturante no campo da disputa política - traz-nos, uma vez mais, o conceito de verdade para o centro das preocupações filosófico morais que impendem, por parte de analistas, pensadores e os próprios cidadãos, sobre a atuação da classe política.

Mas terá a verdade o mesmo peso, dimensão e solenidade para todos os atores em redor da política?

O Grupo de Teoria Política do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho organizou, há cerca de um mês, mais concretamente a 12 e 13 janeiro deste ano a segunda edição do Colóquio em História da Filosofia Moral e Política. Trata-se de um colóquio internacional e anual que este ano teve como o tema “Mentira e hipocrisia na política e na vida moral”. Um programa rico que participei com a comunicação que titula este artigo.

O argumento que lá desenvolvi é que a verdade não é valorada da mesma forma ante os atores que a manuseiam.

Se para um filósofo a busca da verdade é condição que dimana do seu código genético; para um jornalista a verdade é fundamental; para um político a verdade é importante; para o cidadão a verdade é necessária, mas só quanto baste.

Se Hannah Arendt assinalava que “a verdade e a política não andam de boas relações” é importante que se possa traçar uma bissetriz que coloque a verdade como tecido nuclear na análise da política, mas no seu delinear consigamos demarcar onde ela se apresenta como variável imprescindível, ou meramente relativa.

Para sustentar este raciocínio, procurei ensaiar, muito sucintamente, com alicerce de alguns autores, um conceito de verdade do ponto epistemológico, ontológico e gnosiológico, tentando estabelecer uma correlação entre a “exigente” filosofia com a “plasticidade” imanente da política.

Traçar uma diferença entre verdade e realidade e a pendência que têm nos diferentes atores, também foi objeto da minha comunicação.

A dialogicidade da verdade entre quem detém o poder e quem faz o exercício de oposição, mereceu, igualmente, a minha atenção.

Fiz ainda uma breve incursão sobre a dicotomia verdade versus mentira tentando responder às perguntas: há uma ética para o uso da mentira? Quais os limites da sua utilização no espaço público?

Entrecruzei estas reflexões necessariamente breves, concluindo, colocando a verdade no quadro axiológico de atuação dos diferentes intervenientes do diaporama político, com a importância que tem, na minha perspetiva, para cada um deles.

A síntese proveniente destas reflexões adveio de leituras vários autores.

Na filosofia, desde os clássicos, Platão, Aristóteles sobrevoando – mais tarde – Kant, Maquiavel, Espinosa, Camus, Heidegger entre muitos outros.

Sobre o papel do jornalismo na sua dimensão política relevo para: Umberto Ecco, Leone Ginzburg e Karl Kraus.

Políticos, propriamente ditos, procurei exemplificar alguns casos dos séculos XX e XXI sobretudo aqueles que foram protagonistas no mundo ocidental.

Tudo sob o “epitáfio” de que “a verdade não é para todos”.

A língua de trabalho foi o inglês e um dia destes transponho, apesar de ser um pouco extenso, para português de modo a ficar disponível para os mais interessados neste tema.

um bom artigo no Expresso que resume a importância desta organização numa era em que muito se fala de pós-verdade.

Bem Vistas as Coisas, a verdade, sendo essencial, não tem o mesmo valor para todos.


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Criado por Orlando Coutinho @ 2015.  

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