• Orlando Coutinho

Mulheres de Atenas


Este artigo, de minha autoria, foi originalmente publicado no Jornal de Guimarães a 23 de Março de 2022.

Trago o tema à colação ainda a tempo do mês de Março, que a 8 tem a comemoração do Dia Internacional da Mulher e a 21 o equinócio da primavera, época de vida e esperança, particularmente adensada na fé cristã pelo período quaresmal cujo epílogo pascal nos traz a Ressurreição de Cristo, consequentemente o vencer a morte com Vida!

Pareceu-me pertinente por dois motivos interconectados: a celebração do Dia Internacional da Mulher e os horrores da guerra, desta feita na Europa, com a invasão Russa ao soberano território ucraniano com as consequências humanas à vista de todos.

Falemos da condição feminina que justifica a exaltação celebrativa de um Dia Internacional.

De facto, havendo um único género humano – quer nas tradições laicas, quer nas religiosas que nos são mais comuns, onde não se faz diferenciação das criaturas de Deus (Gn1, 26-27), a tradução sociopolítica dessa igualdade está longe de verificar-se; na participação política, nos salários para atividades iguais, na “dupla jornada” que invariavelmente toca a uma só parte e poderia continuar num conjunto lato de exemplos que traduzem a assimetria de tratamento que uma sociedade eminentemente patriarcal tem perpetuado e que justificam a resistência feminista – quantas vezes mais radical – para que se efetive o que parece evidente a bons olhos de uma qualquer pessoa que reflita sobre estes e outros indicadores com o mínimo senso de justiça. Ora é exatamente isso que legitima a afirmação do feminismo enquanto movimento político. A tradução no seio da comunidade de uma correção injusta de tratamento do feminino.

Foi, por isso, com estranheza inusitada que vi clamar, umas quantas almas, pelo feminismo que se ofuscara tratando-se da guerra onde as mulheres deviam – na conceção dos proclamadores – também elas, pegar nas armas! Arvorados(as) em feministas e/ou igualitários, anunciavam, em “ganga contrafeita”, tratamento igual ante circunstâncias que, segundo os(as) próprios(as) a todos convocava. O sofisma argumentativo, merece desmontagem para que se não normalize proposições completamente falaciosas em que só os mais desatentos embarcam.

Em primeiro lugar, um movimento reivindicativo de direitos – seja ele feminista ou de outra qualquer índole – estabelece-se para firmar direitos positivos e não negativos. Ora se, na comunidade política, não se estabeleceu um princípio mínimo de normalidade das relações humanas, acaso estas bem-ditas almas esperam que se empunhem cartazes a perpetuar a desregulação e a clamar mais prejuízo ainda, como é, no caso particular da Guerra, o assinar a sentença de morte?

Em segundo lugar, o movimento de defesa dos direitos femininos, existe num quadro de funcionamento regular das instituições democráticas, ou seja, de relações políticas. Ora a guerra, para além de representar o fim da política e da humanidade com ela, muito raras vezes, no contexto das Relações Internacionais é desencadeada por lideranças femininas; o que releva, em boa medida, para a legítima reivindicação de mais mulheres em lugares governativos. Mas esperam que uma Guerra por elas não desejada, seja por elas travada?

Em terceiro e último (por economia de espaço já que haveria uma boa vintena de argumentos a dissecar) a condição feminina – para quem, como eu, a vê num quadro sinóptico de igualdade de direitos públicos mas sabendo-a na particularidade humana rara da continuidade da vida pela gestação – quando se dá o fim do humano, para se dar lugar à selvajaria grotesca da guerra, tem o dever antropológico de gerar e salvar as gerações futuras, dignificar as passadas e projetar – com os objetores de consciência e homens de paz – o regresso ao Humanismo.

É certo que as “Valquírias de Kiev” vieram mostrar que há sempre quem esteja disposto a “dar o corpo às balas” e que os(as) Senhores(as) da Guerra, há-os ao virar de cada esquina, achando que há dever convocatório na chamada à guerra. Mas, como qualquer cristão, inerentemente vinculado à paz, alinho-me ao que diz sabiamente o povo e rematando para o caso da defesa da condição feminina: “para melhor, está bem, está bem! Para pior, já basta assim!”

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