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  • Foto do escritorOrlando Coutinho

O pão nosso de cada dia


Este artigo, de minha autoria, foi originalmente publicado no Jornal de Guimarães a 5 de Julho de 2023.

Em política o que parece é. E os socialistas locais andam a tentar negar os factos. E quem os ouve, inebria-se com as “fundadas razões” do indefensável. A “estória” conta-se em poucas palavras. O ex-vereador do desporto do município de Guimarães, Nélson Felgueiras é tido como angariador de militantes para o PS através de instituições desportivas que subsidia enquanto decisor político.

Ética? Nenhuma. Legalidade? A apurar. O inquérito municipal decorre tendo o Presidente da Câmara desempossado o vereador de funções. Fez bem? Veremos… Se, de facto, o critério usado para o efeito foi o de perceber da insustentabilidade política de um decisor que pede a paga particular pelos apoios públicos que concede e a isto e nomina de erros de comunicação, então fez bem; até porque, se assim foi, manter-se-á o eleito “disfuncional”. Se abriu um inquérito para “inglês ver” a fim de provar que não houve ilegalidades formais, então usou de cinismo e este atributo faz mal à política. Aguardemos.

Para já, duas dimensões para analisar o caso público. Quantos não haverão em surdina?!

A governança socialista é – desde Magalhães – assim: tudo de “trela”, bem controlado e sem quaisquer autonomias, i.e., numa terminologia tão querida à esquerda o “centralismo democrático”. Ora eu, como democrata-cristão, defendo o princípio da subsidiariedade, ou seja, com critérios públicos transparentes e bem definidos, dotar as entidades de nível inferior com capacidade de execução dos seus projetos, porque o fazem melhor, com conhecimento de causa, com menores recursos e “empoderadas”. Nunca foi este o entendimento dos socialistas locais. A política do “chapéu na mão” estende-se aos que têm a mesma legitimidade democrática que eles: os Presidentes de Junta. Esta mentalidade retrograda e alienante conduz – inevitavelmente – a muitos casos Felgueiras, este posto a nu. E isto diz mais sobre a categoria dos políticos que as promovem, defendem ou normalizam, do que das comunidades que querem vivenciar experiências humanas (tantas delas ancestrais) que se adaptam à metodologia. Mas deviam pôr à tona, de forma unida, esta infantilização das instituições que não enobrece ninguém.

A segunda dimensão tem que ver com a real crença de que o PS é o “Dono Disto Tudo”. Como tal, não devem explicações e por mais que façam, cumprir-se-á a formalidade eleitoral autárquica, para que continuem a degradar a salubridade do espaço público democrático. Será assim? Vejamos.

A divisão entre socialistas é gritante e na ansia de não perderem um único apoio na geometria das contas internas – as únicas que para eles importam, já que o resto “são favas contadas” – ou enviam mensagens difusas, ou simplesmente se calam indiciando que este tipo de práticas é para manter, ainda que se mudem os protagonistas.

De Bragança tiraremos a prova dos nove quando o inquérito terminar; se mantiver a decisão atual opta pela decência em vez do cinismo.

De Felgueiras, poupando o seu partido e o espaço público deste distúrbio, esperava-se a renúncia ao mandato para preservar a dignidade das instituições democráticas. Não o fará: Luís Soares não deixa. Este último, por sua vez, “encalacrado” por se perceber da instrumentalização pública de um dos seus para a disputa interna final que não será boa de se ver.

Ricardo Costa como presidente concelhio do PS o que fez? Calou-se. Ele que se reivindica – qual quadro de menino da lágrima – como ostracizado pelo poder vigente em Santa Clara, na oportunidade mais flagrante de se demarcar, destes nada edificantes comportamentos, revela-se um “primu inter pares”, ou como diz o povo “farinha do mesmo saco”. A “auctoritas e gravitas” de um líder marcante vê-se nestas ocasiões e Costa baqueou.

Sem capacidade regeneradora, sem um fio condutor ético, sem uma ideia clara de cidade, sem transparência na governação, o que tem o PS para oferecer a Guimarães? O vigor da sua militância – estou certo e que não é pouco – e uma ideia de passado glorioso. Futuro? Nada se sabe, alimentemo-nos do “pão nosso de cada dia”…

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