• Orlando Coutinho

Retórica: um exercício de cidadania

Este artigo, de minha autoria, foi originalmente publicado no Jornal de Guimarães a 22 de Fevereiro de 2022.

Decorria o ano de 1996 quando a turma 11-A/4.2 da Escola Secundária Francisco de Holanda chegou à final do torneiro de retórica, organizado pelo grupo de professores de Filosofia da respetiva comunidade académica. Dos precedentes épicos, que o meu querido amigo António Macedo recorda com especial humor, resulta o facto de ainda hoje termos presente, nos nossos encontros gastronómicos, a iniciativa que hoje relevo para tema desta crónica.

De facto, foi para mim absolutamente surpreendente que, decorridos estes anos a Francisco de Holanda fazendo jus ao patrono, mantenha uma vanguarda cultural num momento etário relevante da formação da personalidade dos estudantes. Acrescido, desta feita, com uma gigantesca participação alargada a outras comunidades escolares que abarcam um total bem superior aos mil estudantes. Mérito a ser compartilhado com a Associação Artística Vimaranense (ASMAV) que logisticamente – e certamente com esforço financeiro – proporcionou uma dimensão muito maior a uma atividade deveras habilitante do ponto de vista filosófico-político que quero justificar em quatro ou cinco pontos.

  1. Invocar a retórica enquanto disciplina de enquadramento filosófico é recordar Aristóteles e através desta viagem no tempo à Grécia Antiga, revisitar nomes como Péricles, Demóstenes e Clístenes grandes oradores, políticos e os primeiros construtores de um sistema de organização funcional da sociedade que procurou construir uma abertura primordial ao modelo democrático tal como hoje o conhecemos. Saber, pois, as origens da democracia, do Estado de Direito, da importância do parlamentarismo, da oratória e da argumentação – em tempos que há, ainda, agentes políticos contrários a tudo isto – é um serviço público de grande utilidade e atualidade.

  2. Perceber que a retórica é uma disciplina ordenada que exige preparação fáctica na construção do discurso – que ora se apelida, até fundadamente, de narrativa – onde o clímax perorativo procura tecer os argumentos morais (ethos), os emocionais (pathos) e os lógicos urdidos após a clareza expositiva inicial vincula os participantes a uma organização e clareza de raciocínio que ficarão para a vida.

  3. Dar conta que não só o conteúdo como a forma são partes fundamentais de um todo e que a eloquência enquanto “arte plástica” da representação é vital para o envolvimento do público, coloca a participação política pela palavra, elos essenciais de atração e envolvimento da comunidade.

  4. Perceber a dicotomia presente entre várias visões do exercício retórico, nomeadamente entre sofistas e “dialéticos” tão útil, por exemplo, a quem segue o percurso das ciências jurídicas e ou políticas, onde não só a discussão da verdade vem à tona, como da defesa de toda e qualquer posição por mais frágil que se apresente aprioristicamente, torna a arte retórica no horizonte das infindáveis possibilidades humanas que nos caracterizam enquanto seres pensantes.

  5. O facto de “obrigar” os jovens a pensar, preparar e argumentar em favor e contra os grandes temas da atualidade e trazê-los para o centro da pólis – Guimarães – extravasando os muros da academia é, indubitavelmente, um exercício de cidadania fundamental no contexto hodierno, na exata medida em que a defesa da democracia, da cidadania, da liberdade de expressão e pensamento com razões e contrapontos sobre decisões que afetam a todos e que portanto todos devem poder dirimir – é, do meu ponto de vista, algo magnífico.

O município deve, pois, dar atenção – pela importância democrática imanente – a esta importantíssima iniciativa; e já agora, os partidos – nomeadamente as Jotas – se quiserem, na verdade, refrescar-se e terem a designada “sociedade civil” no seu seio, não podem perder “pitada” sobre este assunto, até porque, ali, poderão estar excelentes quadros futuros. Fica a sugestão, com as congratulações a alunos, professores, escolas e à ASMAV. Bons debates!

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