• Orlando Coutinho

Sweet Home Europa


Comunidade, tradição, identidade, desertificação e, portanto, território, foram pretextos para um conjunto de iniciativas que visam refletir “Portugal em Vias de Extinção”.

Dos eventos, centralizados - mas merecedores de itinerâncias - no D. Maria II em Lisboa, constam debates, teatro, concertos, oficinas, entre outras iniciativas de cariz jornalístico, interpretativo e reflexivo. Nelas, conjuntamente, apodera-se uma interconexão sobre temas que, estando na ordem do dia, respeitam a todos: o humano - nas transformações industriais, digitais, identitárias, no fundo convocando-nos para as raízes históricas e culturais sobre Portugal e o contexto geopolítico em que hoje se encontra enquanto território, esteio e povo.


Na diegese entre a antropogonia de ser português ou europeu, de que me confesso sofrer, dei-me, por momentos, ao conforto de preferir deambular por uma peça de teatro deste ciclo, que titula este artigo, em cena até 27/03.

Uma(s) história(a) de homens e mulheres comuns sob um solo espinhoso - europeu - ora com flores plantadas, ora arrancadas, para delas se valer o amor, ou umas “fichas/moedas” de urgências mais ou menos sentimentais.

Diálogos que apelam a diferentes culturas entre países, desconfianças e peculiares formas de ser, traços comuns que derivam das migrações, da busca da ascensão do “vendedor de flores”, do conservadorismo de quem não sai por medo a um desconhecido envolto em tragicidade; do que recebe sem que seja de braços abertos, do que tenta a integração, por vezes mecanicamente, tudo em três sólidas interpretações de João Vicente, Isabel Costa e João Pedro Mamede que também dirige, ao som de um piano harmonizado ao espaço cénico que haveria de soltar Beethoven engajando diferentes artes que ali se pressentiam umbilicais.

Uma dialética europeia, em que se sentam à mesa pobres e ricos, num repasto impositivamente austero e por isso negado por quem almeja ser um pária, travam-se argumentos que se repetem em cascata ao folhear as páginas dos atos subsequentes. Em comum, o Mediterrâneo, também ele território de naufrágios de sonhos, mas não de vontades, de quem chegando à costa - intenta um recosto por inteiro. Incompreensões nos regressos como as de Irena de Kundera.

Por todas estas “equalizações” que nos trouxe o capitalismo global de que a Europa está, de novo, como objeto da tenaz, que lembrou Sloterdijck – só que a oriente com protagonista rejuvenescido de “sol já bem nascido”… – fazem sentido estas reflexões autóctones, “artesanais”, sobre a dimensão potencial do eventual Homem pós-nacional e das suas origens que, no caso em apreço, desaguaram sobre a cultura portuguesa.

O texto de Davide Carnevali cabe bem sobre qualquer país -do sul, versus do norte - de uma Europa que por precisões históricas teima rodar entre duas velocidades.

A Europa pode, pois, reforçar-se na riqueza multicultural nativa dos diferentes espaços deste vasto território e de quem neles aflui, dando – a estes últimos – condições para que cumpram os seus sonhos e deles se lavre novas epopeias cívicas em harmonia com valores que preservem o Humano nas suas diversas multitudes.

De como a cultura convoca a alta política bem podia ser o mote desta iniciativa que, por bem, merecia multiplicar-se em diferentes cenários e temas. Este a acompanhar, até ao final do mês, por quem passar pela capital.

Bem Vistas as Coisas, o doce lar europeu, para que não seja distópico, precisa de fortificação social que proteja a igualdade do que é singular.


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Criado por Orlando Coutinho @ 2015.  

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