• Orlando Coutinho

Afirma Pereira


A “Coleção Mil Folhas”, que compõe as estantes cá de casa, traz no número vinte e seis um livro que dá título a este escrito.

Vindo de António Tabucchi um estrangeirado – no bom sentido do termo – italiano de ser e português de sentir, que nos transporta aos compassados anos de um salazarismo sem saudade. Talvez a circunstância da sua origem o tenha levado ao paralelismo das penumbradas camisas que faziam eco cromático nas almas italianas, tanto quanto nas nossas, na primeira metade do século XX.

A figura solitária do jornalista Pereira – central na trama – é magnanimamente conseguida. Não só porque a anáfora “afirma”, que ao longo da história é tantas vezes circunstanciada como que um ritual que procura formatar uma verdade interior para viver num equilíbrio que por vezes nos foge, mas também porque o jornalista – ainda que encontre refúgio da sua matricial circunstância de questionar-se, ainda que para viver em paz com o “status quo”, e de escrever a realidade como ela é, ao escudar-se em “obituários culturais”, como o da narrativa – ele é ademais solitário, como todos nós quando diante do espelho. E mesmo quando não queremos ver, por conforto, os sinais dos tempos que nele refulgem, há um retrospetivar juvenil, onde encaixa Monteiro Rossi, que nos apaixona pelo bem (comum) no sentido em que nos damos conta da nossa dimensão social, ou seja, política.

Quantos de nós não falam com o “retrato da nossa alma” personificado na finada esposa de Pereira? E quantas vezes ficamos sem resposta, já que ela está implícita no âmago da nossa consciência? A talassoterapia do espírito a que Pereira se deu no retiro que fez, não foi mais do que definir o Homem que era. E quantas vezes não pagamos um alto preço para nos afirmarmos naquilo que verdadeiramente somos?!

Um livro que se lê bem entre esperas aeroportuárias, voos de ida e regresso, que comummente se dão nesta altura, ou simplesmente numa tarde à sombra - tão recomendável por estes dias.

Bem Vistas as Coisas, Pereira “afirma-se”, como humano, mais pela justiça do que pela lei.

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Criado por Orlando Coutinho @ 2015.  

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