• Orlando Coutinho

Natal para todos


Este artigo, de minha autoria, foi originalmente publicado no Jornal de Guimarães a 29 de Dezembro de 2021.

«E quando alguém estiver doente, mande chamar os responsáveis da Igreja, para orarem por ele, derramando óleo sobre ele, em nome do Senhor». São Tiago 5:14

O título do artigo de hoje foi também epíteto de uma campanha solidária que, em 2000 – quando presidi ao Conselho Municipal da Juventude de Guimarães – o grupo que me acompanhava, organizou junto de crianças e jovens em situações de particular vulnerabilidade. O Natal, no seio do dito grupo, teria significados polissémicos já que havia nele gente sem confissão religiosa ou de outras para lá da católica. Porém a todos imbuía um espírito humanista centrado nos valores fraternos para com o seu semelhante que pudesse circunstancialmente estar a viver menos bem.

Tal espírito parece ter-se perdido. Isto dito, a propósito de uma análise que faço da evolução social de lá para cá em que o furor globalista se instalou sem pudor apelando a uma neutralidade do Estado face ao confessionalismo religioso. Se, aparentemente, podemos concordar com a formulação que os Estados devem ser equidistantes das práticas religiosas dos seus cidadãos, o que temos vindo a verificar – em meu modesto entendimento – é que acoplado a esta ideia neutral, o que se verifica é uma diluição de valores que tínhamos como estáveis na sociedade e que muitos deles eram provenientes de um certo “entendimento abraâmico” proveniente do equilíbrio judaico-cristão que a Europa soube firmar no pós II Grande Guerra. E pelo contrário, ao invés do Estado se tornar imparcial ante as práticas de cariz religioso e/ou associativas, procura imiscuir-se nelas – de que é exemplo a alteração à Lei n.º 52/2019 de 31 de julho, quanto à pertença ou desempenho de funções em entidades de natureza associativa por parte dos próprios deputados. Já no que concerne aos valores que sobrelevavam na acomodação da solidariedade social dos diferentes atores que dão respostas sociais, temos uma hiper, ou desregulamentação, ou ainda uma tentativa de controlo absoluto. O Estado ou é tutor, impondo-se de forma aglutinadora mesmo junto da unidade primacial, a família, ou é desprovido de bom senso, que não só a época em causa impelia a que o tivesse, como base de ação elementar, como recomendaria ante casos práticos do quotidiano.

O que me indignou nos últimos dias e que é um exemplo gritante e consequente da reflexão que atrás fiz é o facto de termos – enquanto sociedade – nove pescadores “sob prisão” (hesitei em colocar as aspas) fruto de estarem, parte deles, contaminados com o Covid-19. Não estão todos, note-se, e alguns deles – ainda que pudessem necessitar de isolamento profilático – estão a 40km de casa, onde podiam permanecer em condições condignas, mas ainda assim enclausurados num barco com outros ocupantes que testaram positivo, sujeitos a contraírem o vírus.

Que mal fizeram aqueles pescadores para estarem coercivamente impedidos de sair de um barco de pesca mesmo testando negativo à Covid-19? Foram trabalhar! Porque têm que aguardar no barco partilhando espaços – únicos, como casa de banho - com outros infetados, que deveriam ser tratados pela comunidade em locais próprios? Porque a autoridade de saúde impôs. Porque não puderam estes pescadores passar o Natal em casa estando perto da família? Porque as autoridades determinaram.

Se alguém acha isto normal, perdoem-me informá-los, mas já foram contagiados pelo vírus globalista que prevê, tudo em nome da “boa economia”, prender pessoas sem que tenham cometido crimes, sem que estejam a pôr em perigo os outros, estando, ao invés, a ser postos em perigo por parte do executor do “capitalismo livre”: o Estado.

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