• Orlando Coutinho

Presidenciais 2021: os resultados


Eis a minha análise, para os meus benevolentes leitores, sobre os resultados das presidenciais 2021.

Marcelo, o grande, indubitável e único vencedor das eleições. Unânime no país, venceu em todos os concelhos. Uma candidatura de centro-direita (mais de centro, embora Marcelo, quando encostado às cordas, não fugisse à sua matriz e num debate assumiu-se de direita), suprapartidária e que responde à capilaridade social do país: Portugal é maioritariamente de centro e quer soluções políticas moderadas assentes em compromissos. O Presidente eleito fez um discurso mais do que excelente e ficará para os anais da história como um tratado político de um Estadista que soube ler o seu país e compreender o momento histórico que vivemos.

Ana Gomes foi uma candidatura útil. Em primeiro lugar porque colocou o insuflado Ventura no seu lugar. Depois porque mostrou as fragilidades da esquerda; por fim, porque – ao contrário do que ensaiou no seu discurso – o “pedronunismo” não tem força social: terá eventualmente, partidária, mas o despesismo público, o centralismo, as nacionalizações e um proto-messianismo candente, não se traduzem nas ansiedades do país.

André Ventura continua a vencer mais no mediatismo do que nas urnas. Não é nada despiciendo o resultado em votos expressos, contudo o balão continua a inchar mais do lado de um espantoso líder do PSD que – dúvidas houvesse – fez mais do que o próprio candidato para hossanar o resultado conseguido. Na verdade, há fascistas a votar Ventura. Mas há também gente de direita que não se revê na inação política do centro direita, na falta de projeto, na mansidão com que tratam um governo falido, que não combate com veemência os focos de corrupção, que faz dos esquecidos, ainda mais esquecidos em territórios como, por exemplo, o Alentejo. É confrangedor ver o líder do PSD a escamotear responsabilidades naquele território que está disponível para votar em alternativa, atirando os alentejanos para um radicalismo que não têm. Beja, que já foi um farol para o PSD, tem um aeroporto parado, enquanto o sistema (CDS incluído) clama por mais centralismo. Continuem assim e este aviso consolida-se, por falta de alternativas.

Comunismo (hard e light). Saiu claramente derrotado. O seu involucro com a governação, tirou-lhes capacidade crítica e reivindicativa do tecido social que representam e as pequenas vitórias ideológicas (como nacionalizações desastrosas) não respondem aos anseios de uma vida melhor da base da sociedade. Os seus discursos moralistas (BE) ou patrocinadores de ditaduras terríficas (PCP) deram força a Ventura e nem Catarina, nem Jerónimo perceberam isso. Aliás é curioso a forma como os dois líderes jogaram nestas eleições. A primeira queria isto mesmo, arrumar com a única alternativa interna na liderança: conseguiu; só não esperava ser também varrida pela torrente negativa junto do seu eleitorado que eventualmente julga recuperar noutro tipo de atos eleitorais com a saída de cena de Ana Gomes. Jerónimo, pelo contrário, queria “passar a pasta” a João Ferreira. O tirocínio só não foi mais catastrófico, porque – simbolicamente – ficou à frente da candidata do BE. Muito curto para uma erosão evidente. Esperemos pelas autárquicas.

Liberais ficaram aquém das expectativas. Aproveitando os descontentes do CDS que não apoiariam Marcelo, mostraram que não passa por ali as soluções para o país. Consolidarão nas malhas urbanas maiores onde há uma elite financeira que quer menos Estado porque dispõem de meios para não recorrer a ele; mas o grosso da população não está de acordo que se larguem “lobos e cordeiros” na mesma cerca e vivam livres e felizes para sempre, porque já sabemos os resultados deste jogo.

Tino de Rans, um voto de protesto "tout court".

Ao contrário de algumas análises, pior ainda dos exemplos que sustentaram este veio, as eleições presidenciais têm ilações partidárias; sem tradução direta, mas com fina análise social, porque são estas pessoas que votarão, logo mais, nas autárquicas e de seguida nas legislativas.

PS – Estará, depois de ontem, sob pressão do PR que compreendeu o momento e as exigências do povo, que o reforçou, para que pudesse ter mais voz de equilíbrio face à ausência de oposição. Contudo o PS está a transformar-se no partido panaceia. Porquê? Porque não há alternativas ao centro. (Expliquem, por favor, a Rio que dizer-se de centro e desvalorizar o parlamento, criticar a comunicação social, controlar a justiça, rejeitar a cultura, apoucar o salário mínimo etc. é uma completa distorção que os portugueses não comem). O problema do PS está na falta de energia de Costa, que se cansou de governar e tem tudo descontrolado (Justiça, Educação, Interior e principalmente – nos tempos que correm – na Saúde) mas ainda assim, se chamado às urnas aguentará a “pole position”. A extrema esquerda “pedronunista” é por ora “fait divers”.

PSD – Tem uma liderança equivocada. O discurso de centro é correto, mas a prática política enviesa por completo o discurso. As loas à extrema-direita – que, aliás, lhe come as papas na cabeça – normaliza um espectro que não é o seu e ajuda a afundar aquele que é o seu parceiro natural, o CDS. A falta de propostas políticas, de debate, de mobilização social, de captação de quadros superiores, de projeto reformista para o país, coloca o PSD num laranja pardo que fará prova de vida nas autárquicas. Rio, ou ganha as autárquicas ou – caso não seja desmobilizado por inércia partidária – sucumbirá nas urnas, por mais desgastado que esteja o PS. Se o povo não vir diferença, respostas às suas ansiedades e energia, vota de modo conservador.

CDS – O Presidente inflamou os resultados presidenciais que não têm tradução com a realidade. Deveria, por realismo conservador – que é de momento quem sustenta a direção – ficar-se pelo contributo que o CDS deu para robustecer a vitória pessoal de Marcelo cumprindo a incumbência dos órgãos partidários. Uma análise desta permitia que outros dissessem que – quando em jogo – o CDS agregaria alguns votos descontentes no Chega e outros que, ciente da falta de unanimismo de Marcelo, transitaram para os liberais. Extravasar isto, tira credibilidade a uma direção que até tem apresentado as propostas certas para o país. Está a faltar nervo à direção que – apesar do “mau tempo” – resistirá com um empate nas autárquicas. A derrota, ainda que curta, porá nas calendas gente de valor, mas que precisa de amplificar marcas que mais ninguém à direita (se é aí que quer estar) consegue: defesa, lavoura e segurança social.

Comunistas (hard e light). As próximas eleições autárquicas ditarão mais erosão, sobretudo ao PCP, já que o BE é insignificante, mas não terá nada de bom a apresentar na “noite das facas longas”. O curioso, será saber se o BE aperta Costa para uma coligação governativa, ou se provocará uma crise política, implodindo-se para voltar a renascer mais tarde. A ver vamos.

Chega – irá a um fictício congresso que servirá para mais um momento propagandístico de Ventura e que ajudará a perceber o enraizamento popular do partido que se afere em autárquicas. Se o resultado for melindroso “tira gás” ao projeto, a menos que Rio os salve de novo.

Liberais – têm tudo a ganhar em próximas eleições, ainda que em dimensão pequena. Conseguirão representação autárquica e em legislativas meterão mais dois deputados. Para um partido jovem, profundamente ideológico e que trabalha para um nicho social é bom.

PAN – sujeito a alguma volatilidade, veio para ficar ainda que deixe de esconder o seu radicalismo extremista.

Bem Vistas as Coisas, só Marcelo ganhou e as águas partidárias começam a agitar-se.


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