• Orlando Coutinho

Um voto humanista



Domingo há eleições legislativas em Portugal e há, por isso, obrigação cívica no exercício de um direito que muito demorou a conquistar e depois a preservar.

Para quem se situa à direita do PS há um sentimento angustiante a pairar. Afinal, há 4 anos o cenário político português sofreu um cambiante de costumes que, embora enquadrado no espírito constitucional, não havia sido experimentado, ou seja, o PS e a esquerda unida resolveram juntar forças e realizar um pacto governativo.

A faro político de Portas permitiu-lhe antecipar que não era a sua vez e Passos – que ficará na história do país – não compreendeu que o mais difícil estava feito: pô-los a assinar a coligação governativa batizada de geringonça (que – sendo a mais formal - não era a primeira, basta recordar as presidenciais de 1986) que daria a estabilidade política ao PS para gerir um programa distributivo no pós-saída da bancarrota. Perdeu, pois, o PSD muito tempo a insistir nas incongruências da formulação, sendo que ademais, não leu bem os ventos económicos europeus que seriam um balão de oxigénio para o cumprimento do acordo das esquerdas e para capturar o discurso da direita: “as contas certas”. Costa, hábil na leitura, deixou o seu maior concorrente sem fala, a ponto de ter que sair.

Se é certo que o CDS se organizou rápido, enquanto partido, a verdade é que a direita sociológica se fragmentou. O impulso libertário, saído da herança Passista, deu um grito, a emergência ultraconservadora mostrou-se, o centro político esguiou-se.

A entrada de Rio no PSD, foi – por tudo isto – traumática. Um homem do Norte, sério demais para ter boa imprensa, com ideias difusas em áreas importantes da governação e que queria abafar o que restava da herança da direita PAF. Ou seja, queria recentrar o discurso e exigia total alinhamento a ponto de convidar a sair quem não jurasse fidelidade. Pois assim aconteceu. Ao invés de unir os cacos, dividiu mais e surgiu a Aliança de Santana Lopes e a Iniciativa Liberal.

Se a direita perdeu demasiado tempo em lutas internas e divisões (Cristas segurou-se com o resultado de Lisboa já que internamente sempre penou com os que de mais perto a acompanhavam) revelou, ademais, desprezo ideológico pelas suas bases fundacionais e com isso a acertar num discurso fiscalizador – por um lado (abandonando a falta de legitimidade do “perdedor que governa”) – e a adotar uma mensagem mobilizadora.

Costa, o BE, o PCP e o PAN governaram pessimamente. Deram o que não tinham chutando a dívida para depois; aumentaram os impostos e diminuíram os serviços públicos; degradaram as instituições e a autoridade do Estado; instrumentalizaram a justiça acabando com o bom trabalho da anterior PGR; acabaram com o livre direito à greve; não atenderam os mais pobres; deixaram – literalmente – os cães à solta com a “reforma dos canis”; permitiram ir “ao supermercado” escolher o “género” antes da maioridade; podia continuar…

E nós o que fizemos perante isto? Trapalhadas (com os professores, com colagens à extrema-direita antidemocrática, com divisões internas, com má comunicação nos períodos sensíveis, podia continuar…). Respostas inteligíveis e rápidas ao “nosso povo”, nada…

O que ficou é – por isso – pouco: a seriedade de Rio (a dele, só, porque à volta não há garantias); a combatividade difusa de Cristas (que se lhe adivinha estar a “recibos verdes”); o utopismo de Santana (que ninguém sabe se extingue nesta eleição); o libertarismo de Guimarães Pinto (com menos impostos, mas a merecer reflexão quanto ao Estado que quer); o ecologismo escondido de José Inácio Faria (que merecia mais atenção); e a defesa das tradições por Gonçalo da Câmara Pereira. E nada mais. É pouco, sem dúvida. Mas é melhor que nada. E à falta de melhor é por aqui que temos – os que não se reveem no “chico-espertismo” de Costa – de escolher. Bem certo é que, mesmo que Rio fosse a surpresa da noite e vencesse as eleições, a fazer fé nas projeções, tal só contaria para o campeonato interno, já que a geringonça 2 conheceria a luz do dia. Mas é importante que se impeçam maiorias que não sejam as artificiais, como temos, de modo a que no dia 7 se comece a revisitar os sedimentos ideológicos do humanismo cristão europeu que agregou, no passado, a direita democrática portuguesa. É importante, para que a base de partida seja sólida e dê alento a quem venha para conseguir fazer bem a “síntese” e mobilize, num projeto articulado, que bem pode ser complementar – para proteger independências – um pensamento abrangente que não passe por esta solução governativa.

Bem Vistas as Coisas, um voto humanista, só o pode ser se à direita do PS.

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Criado por Orlando Coutinho @ 2015.  

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